• Fábio Agustinho

A história do termo “América Latina”

Atualizado: Fev 18


A formação de uma determinada identidade passa necessariamente por uma oposição contra elementos não incluídos nas características fundamentais dessa identidade. A ideia de um Ocidente civilizado e desenvolvido, por exemplo, apenas existe porque há a construção imaginária de um Oriente bárbaro e atrasado capaz de fazer oposição aquilo que o mundo ocidental representaria. Portanto, toda identidade é histórica e, em consequência disso, são constituídas a partir de múltiplas relações políticas, econômicas e culturais herdadas das gerações anteriores às gerações atuais dos seres sociais. A noção de “América Latina”, não é diferente.


O termo “América Latina” têm suas raízes nos processos de independência das antigas colônias localizadas no continente americano. Os desafios de se desvincular da tutela imposta pelo estatuto colonial e consolidar os processos de autonomização política eram comuns às diversas recém formadas nações da região e traziam consigo temores também comuns, sendo o principal o de uma contra-ofensiva europeia que interrompesse os processos de constituição de Estados nacionais independentes no continente. Com exceção do Brasil, que passou por uma situação singular devido à negociação pactuada de sua independência política, os países que surgiram das guerras de libertação no século XIX procuravam formar uma identidade americana comum à todos os povos do continente com o intuito de fazer frente à influência dos países europeus em seus assuntos internos. Essa identidade americana — que tem como um dos fundamentos a oposição “América X Europa” — passará por sucessivas transformações no decorrer do século XIX, com destaque para as decorrentes de dois fenômenos: 1) a política expansionista estadunidense no continente, especialmente na região da América Central; e 2) a “racialização” de categorias explicativas referente aos países de origem hispânica da região.

O primeiro fenômeno tem como alguns de seus momentos de consolidação fundamentais a Primeira Conferência Pan-Americana e a Guerra de Independência cubana entre 1895- 1898. Esses dois eventos revelaram aos países da América Central que os interesses dos EUA eram diferentes do restante das nações do continente. Enquanto a maioria dos países do continente preocupava-se com projetos de unificação continental para fortalecer suas posições frente às antigas metrópoles, os EUA estavam focados em construir essa força a partir de um processo unilateral de tomada de riquezas e dominação estratégica de determinados territórios no continente americano. O ano de 1898 é emblemático por ser a data da independência política de Cuba frente à Espanha e o momento de início da ocupação estadunidense sobre a ilha caribenha.


O segundo fenômeno, por sua vez, tomou sua determinada forma em consequência do vínculo formulado no século XIX entre racismo e ciência. Como consequência dessa conexão, constitui-se uma imagem das antigas colônias espanholas como nações bárbaras devido ao excesso de povos ameríndios e negros em seus territórios. Dessa forma que se fundamentou a oposição entre América Anglo-Saxônica e América Latina, sendo a primeira percebida como a terra da democracia e da liberdade do homem branco e a última como o mundo atrasado e animalesco das “raças inferiores”. Um autor que foi genuinamente revolucionário ao romper como essa dicotomia foi o pensador cubano José Martí, cuja busca na história por elementos de uma identidade americana comum, em prol da valorização das especificidades dos povos do continente, levou-o a formular um humanismo radical que incluía negros e indígenas ao invés de jogá-los no campo dos “povos sem história”.


Em suma, a noção de “América Latina” é histórica e tem como pólo opositor fundamental a noção de “América Anglo-Saxônica”, cujo principal representante são os EUA, país que tem uma relação de natureza essencialmente belicosa e conflitiva com os países da região. Apesar de a violência dos EUA contra a América Latina ser mais ou menos visível dependendo do local e/ou período no espaço-tempo que for analisado, ela — assim como a hegemonia cultural anglo-saxã no continente — é uma constante na história dos países latino-americanos desde suas independências políticas, e é, portanto, um elemento fundamental para que se compreenda a continuidade da pertinência de se interpretar os eventos que ocorrem no continente americano a partir das especificidades constitutivas e integradoras da América Latina


Escrito por Fábio Agustinho (fasjunior8@gmail.com)