• Renato Silva

A descentração do sujeito sob a ótica de Hall

Atualizado: Nov 4

Stuart Hall, antropólogo e sociólogo jamaicano, contribui grandemente, em termos culturais, sobre o impacto da globalização no indivíduo pós-moderno. Como bem coloca o autor, o sujeito do Iluminismo (XVII - XVIII) é caracterizado como o indivíduo centrado e dotado de capacidades da razão. O sujeito sociológico, por sua vez, é dependente da relação com aqueles ao seu entorno para se definir, e o sujeito pós-moderno, aqui analisado, não carrega uma identidade fixa, o que resulta na crise de identidade desse sujeito.

Isso estimula o questionamento sobre como a globalização faz o indivíduo repensar a forma como enxerga o seu entorno e como os povos ocidentais e orientais reagem a partir do contato direto entre si. Ao realizar um breve resgate histórico do processo de globalização, Hall identifica três possíveis consequências, em termos culturais.

Sob o primeiro aspecto, um dos frutos do aumento do entrelaçamento cultural é a desmembração das identidades culturais, isto é, os fluxos culturais atuam no quadro de definição das identidades culturais, que, duplamente deslocadas (no mundo social e de si mesmas), não se veem mais separadas umas das outras como se dava antes do período pós-moderno.

O segundo impacto pode ser analisado como uma resposta de negação do processo em andamento. O Ocidente, acostumado por contatar as culturas com as quais não se identifica restritamente como ferramenta mercadológica, recusa a aproximação direta no mesmo espaço social que vive e, ameaçados com tal realidade, reagem de forma hostil.

Hall considera que identidades nacionais passam a ser reforçadas pela resistência à globalização. O apontamento remonta a diversos casos de movimentos nacionalistas ocorridos na Europa desde o século XX, com grupos da extrema-direita esperançosos de conseguirem barrar os fluxos culturais e retornar a qualidade de indivíduo anterior à pós-modernidade. Nesse incessante esforço, materializam o racismo por meio da exclusão social fomentada por europeus e pela não ação do Estado sentida, a destacar, aos jovens franceses filhos de imigrantes que sentem as dificuldades de acesso a emprego e moradia digna.

O último aspecto do impacto da globalização proposto pelo autor interliga-se ao primeiro já que a desintegração de identidades culturais abre espaço ao surgimento de novas identidades, agora híbridas.

Sob a hibridização, Rushdie colabora com dois importantes eixos para analisar o Ocidente frente ao surgimento das novas identidades culturais: a Tradição e a Tradução. No primeiro eixo (Tradição), o autor analisa a busca por restaurar uma etnia, sustentadas no reavivamento da ideia de “pureza racial” e ortodoxia religiosa. Fruto de tais ideologias, foram acometidos diversos processos de separação étnica, como o caso da Rússia, da Lituânia e da Ucrânia.

A Tradição é dada com a busca pela segregação entre as identidades culturais até então separadas e ao fazer isso cultuam o mito da unificação do Estado-Nação nas culturas ocidentais nacionais. O ponto-chave diante dessa ótica é a impossibilidade de separar identidades culturais como ocorreu por meio da formação de Estados nacionais no Ocidente.

Hall comenta essa inviabilidade ao acrescentar que: “O problema é que eles [Estados nacionais ocidentais] contêm, dentro de suas fronteiras, minorias que se identificam em culturas diferentes”. (HALL, p.93). Assim, a tentativa de frear o impacto da globalização no sujeito pós-moderno, além de inviável, é bastante custosa aos grupos que ativamente se deslocam no globo na busca por sobrevivência.

O segundo eixo indicado pelo autor (Tradução) inclina-se, em maior grau, às novas configurações sociais, pois absorve a capacidade do indivíduo de ser fruto de histórias que não se limitam a uma só fronteira, e com isso, renuncia a prática do absolutismo étnico. Nesse sentido, o segundo eixo possibilita ao indivíduo pós-moderno considerar que a referência das fronteiras de um Estado-Nação seriam insuficientes para captar as novas diásporas dos movimentos pós-coloniais.


REBELIÕES JUVENIS DE 2005 NA FRANÇA


A Europa Ocidental dispõe de diferentes capítulos em sua história que remontam às proposições até aqui mencionadas. Não se pode deixar de destacar a Marcha dos Beurs em 1983, que exigia o fim da série de violências com os imigrantes e franceses de origem muçulmana e que reuniu 100 mil beurs durante a passeata de Marselha a Paris. (LE MONDE, 15/dez./2005). Semelhante a essa, trato das rebeliões de jovens franceses ocorridas em 2005.


O primeiro mito a ser debatido sobre esse último caso é a ótica restrita que considera apenas a dificuldade de integração cultural dos imigrantes orientais com os franceses nativos. Com esse olhar restrito às diferenças de costumes, as rebeliões ganham o caráter de “guerra santa”.

Entretanto, o que se vê na realidade francesa é o amplo desejo por integração socioeconômica e na reação proferida pelos jovens filhos de imigrados, com a percepção de estado de miséria social e alento frente à sensação de não melhorar seu padrão econômico e se sentirem alheios enquanto cidadãos e desesperançosos enquanto seres humanos. A realidade cruel faz ecoar os gritos pela promoção de políticas do Estado francês que atinja também a minoria crescente de imigrantes na França. A necessidade do olhar econômico está em compreender o contexto político daquela época, estruturada no racismo que “vai construindo modelos para as diferentes ‘etnias’ nos quais se espera que os ‘diferentes’ se acomodem, segregando-os em vez de tão somente hierarquizá-los” Hardt e Negri (2001).


CONTEXTO POLÍTICO


As revoltas na França de 2005 foram processadas em um ambiente urbano dos subúrbios com edifícios (cités) em estado de precariedade e projetados pelo Estado para abrigar populações pobres, sobretudo, trabalhadores imigrantes. A má qualidade dessas moradias concentrada na redução de investimento estatal na última década com "corte de 300 milhões de euros em recursos públicos para políticas benéficas aos subúrbios, entre os quais cortes de 60% nos últimos três anos aos subsídios aos grupos de bairro que trabalham com os jovens e redução nos orçamentos de treinamento profissional, educação, combate ao analfabetismo e policiamento de bairro [...]”. (IRELAND, 15/nov./2005).


Na verdade, a revolta recai sobre o impacto da globalização nos termos da homogeneização cultural (HALL, p. 55) vista no racismo com os filhos de imigrantes do Oriente. O estopim da rebelião representa “a carência diária de justiça social” e, pelo fato de estarem “desconectados da política formal”, os imigrados reagem de modo agressivo na proporção ao que se sentem excluídos. Tariq Ramadan (apud GREENHALGH, 13/nov./2005, p. J4).


A FRANÇA DE 2005: O QUE É SER FRANCÊS?


Hall coloca a cultura como um dos elementos de poder. Ao fazer isto, revela o forte impacto do discurso anti-imigração de povos do Ocidente, calcados no privilégio de maior estabilidade econômico-social, que procuram deslegitimar direitos humanos dos grupos étnicos oriundos do oriente em solo europeu.

Na tentativa de recusar a presença do “outro”, acabam por replicar estruturalmente o quadro de miséria social e desesperança de melhora econômica por meio do trabalho. É construído e reforçado o ideário sobre o Oriente ligado a práticas terroristas que, por sua vez, dá vazão aos discursos para criação de obstáculos - fechamento de fronteiras, debate sobre a prática dos costumes religiosos de imigrantes, redução do financiamento público para moradias voltadas aos imigrados visando a manutenção da identidade cultural europeia que se entende como fixa e una.

Ainda, o reavivamento dos discursos da extrema-direita que proclamam “pureza racial”, a priori ultrapassados, são por alguns defensores europeus entendidos como alternativa necessária ao caso. Qualquer contra-resposta (ou rebelião) torna-se passível de ser reprimida, por um grupo que teme a perda de seu elo nacional com a aproximação de povos distintos de si.

O fortalecimento do sentimento antimulçumano na França - país com a maior ampla minoria muçulmana da Europa - é um capítulo evidente de se perceber uma nova tentativa de apagamento por parte do colonizador sobre a história dos povos imigrantes nos últimos anos na França. O quadro social desumano que esses grupos enfrentam é a consequência direta da tentativa de deslegitimação de se locomover e expressar-se no mundo, com enfoque na língua e na religião praticada. Como bem pontua Hall: “O discurso da cultura nacional […] constrói identidades que são colocadas, de modo ambíguo, entre o passado e o futuro. Ele se equilibra entre a tentação por retornar a glórias passadas e o impulso por avançar ainda mais em direção à modernidade.” (HALL, p. 33).


CONSIDERAÇÕES FINAIS


Os fatos até aqui mencionados procuraram demonstrar que o "problema da imigração" é uma ótica muito limitada para captar a totalidade do problema francês. É preciso entender que os fluxos culturais com a globalização recaem no racismo e que, por sua vez, resulta no grave quadro econômico e social dos imigrantes em 2005 na França.

O debate aqui trazido vai além: o descentramento do sujeito deve ser entendido não como algo que se buscou e se quis, mas como crise. Logo, o mundo pós-moderno não apresenta um ponto referencial em torno do qual o sujeito pode se definir por completo. Bem mais que o culto ao impermanente, a pós-modernidade revela o caráter multifacetado do sujeito pós-moderno e a frágil sensação de aceitar essa nova qualidade.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


DERVICHE, André. Atentados na França: o renascimento de antigos conflitos. Jornalismo Júnior, São Paulo, 08 de nov. de 2020. Disponível em: <https://jornalismojunior.com.br/atentados-na-franca-o-renascimento-de-antigos-conflitos/>. Acesso em: 06 de jul. de 2021.


IRELAND, Douglas. Trinta anos de negligência incendiaram a França. Folha de S. Paulo. 15/nov./2005.


MONDE, LE. Fracture urbaine, capturado de http://www.lemonde.fr/web/article/0.1@2-3232.36-707519@51-704172.0.html em 15/dez./2005.


HALL, Stuart. A identidade cultural da pós-modernidade. São Paulo: DP&A, 2006.


HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Império. 3. ed., Rio de Janeiro: Record, 2001.


SANTOS, Boaventura de S. "Modernidade, identidade e a cultura de fronteira". Tempo Social - Revista de Sociologia da USP, v.5, n.I-2, p.31­-52, novo 1994.


RAMADAN, T. To Be a European Muslim: A study of islamic sources in the European context. Leicester: Islamic Foundation, 1999.


REIS, Rossana Rocha. Políticas de nacionalidade e políticas de imigração na França. Rev. bras. Ci. Soc., São Paulo , v. 14, n. 39, p. 118-138, Feb. 1999 . Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69091999000100007&lng=en&nrm=iso>. acesso em 10 jul. 2021.


RUSHDIE, Salman. Pela defesa do multiculturalismo. O Estado de S. Paulo, 18/dez./2005, p. J6.