• O Não Internacionalista

A construção paródica de Macunaíma

Escrito por Maria Letícia Borges


Mário de Andrade foi um dos fundadores da primeira fase do Modernismo brasileiro, movimento que surgiu no início do século XX a partir do crescimento urbano e industrial da cidade de São Paulo e que teve como marco a Semana de Arte Moderna de 1922. O projeto estético modernista caracterizou-se pelo rompimento com a linguagem tradicional e pela destruição das estéticas anteriores, com o objetivo de reconstruir a cultura brasileira, revisar criticamente a história e as tradições culturais nacionais e se desvincular de valores estrangeiros. Apesar disso, o movimento foi influenciado pelas vanguardas europeias a incorporar o popular e o primitivo à arte, em oposição ao racionalismo e cientifização do pensamento. O Modernismo buscou, portanto, uma moderna cultura brasileira a partir de uma visão folclórica e alheia ao cânone — crítico não apenas da linguagem sistematizada e do racionalismo, mas também das próprias estruturas tradicionais.

O enredo de Macunaíma narra a trajetória do anti-herói de mesmo nome, um trickster mitológico que transita entre uma floresta folclórica e a cidade de São Paulo. Inserido nesse contexto, Macunaíma se firma como uma síntese dessas características do Modernismo, ou seja, utiliza a técnica de bricoleur para combinar elementos distintos e formar uma unidade estrutural em si. Observa-se a assimilação do folclore, da oralidade popular e da tradição erudita na obra, a fim de reconstruir criticamente a história brasileira. Vale ressaltar, ainda, o projeto nacionalista em que Macunaíma estava inserido, já que o autor cria uma utopia geográfica e uma indeterminação temporal como alegoria para a coexistência regional, de modo a estabelecer um elemento unificador da pátria (GAIO, 2016).

O capítulo IX do livro, Carta pras Icamiabas, trata de uma carta enviada por Macunaíma à tribo exclusivamente feminina, solicitando recursos para continuar a aventura e informando-lhes sobre suas supostas aventuras no centro urbano. O capítulo se situa no meio da obra, na qualidade de intermezzo, diferindo-se da parte anterior e posterior do livro. Vale observar que este capítulo introduz o gênero carta no romance e apresenta um estilo de escrita completamente distinto do resto do livro. Nela, o personagem de Macunaíma substitui o narrador e traz ao enredo sua própria perspectiva. Carta pras Icamiabas é uma espécie de corpo estranho entre os capítulos, que instaura um contraste intencional. No caso, a combinação de gêneros é técnica formativa da obra, pois está de acordo com as intenções do autor de “destruição” dos moldes tradicionais do discurso para a criação de algo novo.

Existe, assim, uma clara oposição entre o discurso do narrador e o discurso de Macunaíma no capítulo — o narrador emprega a língua culta, ao passo que Macunaíma tenta reproduzir o que assimilou do discurso erudito. Dessa forma, sua carta apresenta uma sucessão não digerida de frases, trechos de poesia, discursos verborrágicos, citações em língua estrangeira, expressões em latim, ou seja, uma exposição desordenada de frases sem sentido.

A dissonância entre discursos configura heterodiscurso — conceito bakhtiniano — na obra. A voz do personagem principal traz, ao mesmo tempo, duas intenções: a intenção direta do falante e a intenção refratada do autor, trazendo assim duas vozes, dois sentidos e duas expressões (BAKHTIN, 2015). Ao discurso parodístico é análogo o emprego da ironia e da ambiguidade no discurso do outro, pois também nesses casos esse discurso é empregado para transmitir intenções que lhe são hostis (BAKHTIN, 2013).

Assim, a intenção refratada de Mário de Andrade, ao destacar a afetação pedante da carta, foi ironizar a erudição como arma retórica, isso ao retratar Macunaíma encantado com a civilização, com a ilusão do progresso e do discurso intelectualizado. Ou seja, o emprego da linguagem rebuscada por Macunaíma, no capítulo, visa parodiar a escrita bacharelesca. Pode-se atestar que o autor emprega as palavras de outro para expressar suas próprias ideias, no sentido de escancarar, por meio da paródia, a dualidade entre o primitivo e o civilizado, o brasileiro falado e o português escrito.

A carnavalização, outro conceito bakhtiniano, também pode ser observada na obra. A paródia é vinculada aos gêneros carnavalizados — uma vez que surge da criação de um mundo às avessas, destronante daquilo que é estabelecido (BAKHTIN, 2013). Ambas promovem a profanação pela combinação entre o sagrado e o herético, “o elevado com o baixo, o grande com o insignificante, o sábio com o tolo, etc” (BAKHTIN, 2013, p. CXXXVIII). Na carnavalização está presente a dualidade entre o apolíneo e o dionisíaco, entre a espiritualidade e a carnalidade, entre o sério e o cômico, assim como na inversão paródica.

“Na base da ação ritual de coroação e destronamento do rei reside o próprio núcleo da cosmovisão carnavalesca: a ênfase das mudanças e transformações, da morte e da renovação. O carnaval é a festa do tempo que tudo destrói e tudo renova” (BAKHTIN, 2013, p. CXXXVIII).

Resta clara a natureza carnavalesca da paródia, tendo em vista o elemento de coroação e de destronamento, de destruição e de reconstrução, bem como de subversão presente no discurso parodístico. O elemento carnavalizante está presente em Macunaíma, pois, de acordo com Gilda de Mello (2003), o anti-herói brasileiro é a carnavalização do herói do romance de cavalaria. Em Mário de Andrade, a carnavalização advém da negação do projeto cavaleiresco, da paródia, uma vez que “Macunaíma é dominado pelo medo e as suas fugas constantes estão em desproporção com a realidade dos perigos; ele é, por conseguinte, o avesso do Cavaleiro da Triste Figura, representando a carnavalização de uma carnavalização” (SOUZA, 2003, p. 77).

Na obra, observamos a consonância de referências de Mário de Andrade combinadas por meio do bricoleur, refratando o discurso do narrador no personagem por meio do heterodiscurso, de modo a formular uma paródia do intelectualismo alienante da burguesia. O traço parodístico do capítulo reside, justamente, na destruição e reconstrução do gênero com o objetivo de criar algo novo e ironizar o antigo, característica marcante do movimento modernista. A carnavalização, nesse contexto, encontra-se no cerne de Macunaíma, em seu movimento de transformação e destruição, evidenciando as antinomias da brasilidade a fim de criar um símbolo nacional.


Sobre a autora:Maria Letícia Sousa Borges é aluna de graduação da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília (UnB). Piauiense, reside em Brasília (DF) há 5 anos. Integra grupos de pesquisa na área de Teoria Constitucional, História do Direito e Literatura e Cultura. Possui como áreas de interesse os estudos da Literatura Russa, da Análise Crítica do Discurso, do Direito Constitucional Comparado e da História do Cinema.


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