• Guilherme Caruso

A ascensão da extrema direita como resposta à crise migratória na Europa

VALORES, IDEOLOGIA E XENOFOBIA


A crise migratória na Europa contribuiu para a ascensão de partidos e líderes de extrema direita, uma vez que, por considerarem os imigrantes um grupo externo que não deveriam pertencer à mesma sociedade, alguns europeus passaram a demandar mais fortemente o controle das fronteiras. Na década de 2010, milhões de pessoas do Oriente Médio e da África buscaram asilo na Europa devido às condições adversas em seus países de origem — guerras, pobreza e fome. Apesar de todo seu sofrimento para chegar ao continente, nem todos os refugiados foram bem-vindos. As predisposições psicológicas moldam a maneira como os indivíduos interpretam fenômenos internacionais, como a migração forçada. Na Europa, a opinião pública reagiu de forma heterogênea à chegada dos refugiados, entretanto muitas pessoas se opuseram. Os valores individuais que estimulam a lealdade e a pureza do grupo, quando combinados com ideologias conservadoras, levam à xenofobia. Assim, a ascensão da extrema direita é uma resposta aos anseios daqueles que querem que seu país seja etnicamente homogêneo, sem imigrantes que, segundo eles, podem roubar seus empregos e trazer o terrorismo para dentro de suas fronteiras nacionais.

Pessoas com ideologias conservadoras prezam políticas externas que possam assegurar o domínio cultural e a segurança nacional, opondo-se à imigração por serem sensíveis a ameaças e incertezas no processamento de informações relacionadas ao exterior. Já os indivíduos que defendem valores de lealdade e pureza do seu grupo veem os imigrantes como inferiores e perturbadores da ordem social. Essas duas dimensões são, em termos da Psicologia, o autoritarismo de direita (RWA) e a orientação à dominação social (SDO). Quando combinados, a deferência à autoridade, às tradições culturais e às hierarquias sociais alimenta um nacionalismo de alto grau, no qual o amor e o orgulho pelo Estado-nação, junto a um compromisso emocional com o status quo social, político e econômico do país, levam à desvalorização do estrangeiro. Essas pessoas consideram os elementos externos como minadores de seu Estado-nação: uma vez que têm culturas e raças diferentes, os refugiados não podem ser integrados na sociedade.

Muitos cidadãos europeus preocupam-se com os possíveis impactos econômicos nas contas públicas e no mercado de trabalho, além da suposta ameaça que os refugiados islâmicos representariam para sua cultura e segurança. Essa visão preconceituosa fortalece a retórica anti-imigração frente à maior onda de migração e crise humanitária no continente desde a Segunda Guerra Mundial. Pesquisas analisaram como as diferentes orientações ideológicas e suas intensidades moldam as respostas psicológicas à crise dos refugiados. Os resultados mostraram que a direita é mais ansiosa e favorece políticas mais excludentes. Os participantes da extrema direita veem a solução da crise dos refugiados como simples — sua nação deveria negar asilo a todos os refugiados — e possuem mais certeza de julgamento sobre sua crença. A percepção de que os imigrantes roubam empregos dos trabalhadores locais e recebem maior assistência social do que os cidadãos europeus, além do medo de ataques terroristas, encoraja a desconfiança e a hostilidade que levam ao racismo e à xenofobia — e ao apoio à solução da extrema direita. Nesse contexto, dados de modelos de regressão estatística demonstram uma forte relação entre a parcela da população imigrante de um país e a propensão de seus cidadãos a votar na extrema direita.

O crescente apoio aos partidos de extrema direita em toda a Europa surge como uma resposta à noção de que apenas os membros de comunidades étnicas estabelecidas devem habitar um país. Em 2014, o Pew Research Center mostrou que a maioria dos entrevistados de direita desejava limitar o número de novos imigrantes que entram em seus países. As eleições europeias confirmaram esta tendência, uma vez que os partidos de extrema direita em vários países ocupam o segundo ou terceiro lugar nos parlamentos nacionais — passaram de cerca de 5% no início dos anos 1990 para mais de 15% hoje. Seus programas são baseados em alteridade: o resultado de um processo discursivo pelo qual um grupo dominante (“nós”) constrói grupos externos (“eles”), estigmatizando uma oposição apresentada como uma negação da identidade e, portanto, um motivo para discriminação. Aqueles que apoiam esses partidos tendem a fazê-lo porque compartilham a crença de que os imigrantes são perigosos, pois constituem uma ameaça econômica e cultural para o seu grupo nativo. O Partido da Liberdade (FPO) — um partido de extrema direita austríaco — passou de 12,71% nas eleições para o Parlamento Europeu em 2009 para 19,72% em 2014. Nas eleições presidenciais de 2016, seu líder Norbert Hofer perdeu por menos de um por cento, mostrando a ascensão da direita no país.

Não só na Áustria, mas em vários outros países europeus, a ascensão da extrema direita pode ser vista como um processo de união de valores e ideologias de indivíduos que demandam um líder disposto a implementar as medidas que desejam. Esses líderes são políticos de elite que não são distantes ideologicamente dos públicos que representam: uma vez socializados nos mesmos contextos nacionais, eles compartilham ideologias e atitudes internacionais semelhantes aos seus constituintes. Viktor Orbán, o Primeiro-Ministro de direita da Hungria, declarou que o povo húngaro não vê os muçulmanos como refugiados, mas como invasores, e Zoltán Kovács, um porta-voz do governo, afirma que a migração não é um direito humano. Ambas as posições retratam a concepção da opinião pública que é contra a aceitação e assimilação dos refugiados em sua sociedade, representando uma xenofobia etno-nacionalista que exige o fechamento das fronteiras nacionais para imigrantes de raças diferentes.

A crise migratória e as suas respostas têm consequências para a integridade da União Europeia e levantam dúvidas sobre em que medida a constituição das fronteiras deve considerar a pureza do grupo estabelecido. Embora o Reino Unido não fora signatário do Espaço Schengen — zona “sem fronteiras” que permite a livre circulação de pessoas na Europa — em 2016, sua população votou pela saída da União Europeia (Brexit), querendo ainda mais controle sobre quem pode entrar em seu país. A ascensão da extrema direita instiga um sentimento nacionalista do povo que se opõe ao cosmopolitismo e à integridade da União Europeia. Nessa conjuntura, as ideologias conservadoras combinadas com os valores de lealdade e pureza do grupo, por visarem homogeneização e remoção dos estrangeiros, podem, em última instância, considerar não apenas os refugiados do Oriente Médio e da África como um obstáculo à coesão nacional, mas também cidadãos europeus de outros países. Se a pandemia COVID-19 aumentar o medo do estrangeiro e as pessoas apoiarem mais medidas da extrema direita, a estabilidade da ordem e das fronteiras e instituições transeuropeias poderá sofrer graves impactos.


Referências

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