A Argentina faz um sinal ao BRICS



O que isso significa?


Resenha Por: Tainah Pereira e Beatriz Bandeira de Mello



No início de janeiro, o presidente da Argentina, Alberto Fernández, esteve na China, onde participou da cerimônia de abertura das Olímpiadas de Inverno de 2022; porém, antes de pousar em solo chinês, Fernández foi à Rússia, onde se encontrou com o presidente Vladimir Putin. Nos marcos da associação estratégica, firmada em 2015, ambos os mandatários discutiram projetos de investimento, de modernização de ferrovias e de cooperação energética, além de destacarem a atuação bilateral durante a pandemia, impulsionada pela aquisição da vacina Sputnik V.

Já na China, Fernández recebeu da Universidade de Tsinghua o título de professor honoris causa e, junto ao governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, discutiu os termos para a produção da vacina Sinopharm em território argentino. Em reunião com o presidente chinês Xi Jinping, Fernández reforçou o desejo de aprofundar os laços “políticos, comerciais, econômicos, científicos e culturais” entre os dois países. Ao lado dos ministros de Relações Exteriores, Santiago Cafiero e He Lifeng, o líder argentino acordou a integração de seu país à Rota da Seda, sendo o primeiro da região a fazê-lo. Em contrapartida, o presidente chinês apoiou o pleito argentino pela soberania das Ilhas Malvinas e as iniciativas para revisão de políticas financeiras internacionais, com ênfase na atuação do Fundo Monetário Internacional (FMI). Não menos importante, Fernández visitou também o Centro Tecnológico da Huawei, em Beijing.

No ano em que se comemoram 50 anos das relações diplomáticas entre China e Argentina, o país sul-americano tem buscado aproximar-se cada vez mais do gigante asiático. Desde o início do ano, o governo tem executado uma série de iniciativas para fortalecer a cooperação, como o “V Diálogo Estratégico para a Cooperação e Coordenação Econômica”. As movimentações ocorrem não só nas áreas de cooperação nuclear, de transferência de tecnologia e de agricultura, mas também na consolidação de um amplo programa de investimento em infraestrutura e no incentivo à produção de energia limpa com ênfase no desenvolvimento sustentável. Em 2017, os dois países firmaram o Plan Quinquenal Integrado China-Argentina para la Cooperación en Infraestructura (2017-2021) e, em 2020, assinaram um acordo swap de moedas entre o Banco Popular da China e o Banco Central de la República Argentina. Desde 2021, a China é o maior parceiro comercial da Argentina, superando o Brasil.

O encontro de Fernández com dois dos grandes sócios do BRICS repercutiu na imprensa, principalmente após a declaração feita pelo presidente de que a Argentina teria interesse em integrar-se ao bloco. Embora tenha sido recebida com certo ceticismo, a fala de Fernández chama atenção para dois pontos: em primeiro lugar, a tentativa da Argentina em dividir com o Brasil o status de parceiro confiável na região, sobretudo após o desgaste da relação sino-brasileira, observada durante o governo Bolsonaro. Depois, a busca pela diversificação de parcerias para diminuir a dependência da Argentina em relação aos Estados Unidos - no momento em que o país concluiu as negociações com o FMI para o pagamento da dívida de US$45 bilhões, contraída em 2019 durante o governo de Maurício Macri.

Esse movimento não é inédito, uma vez que os governos Kirchner, sobretudo durante as administrações de Cristina Fernández (2008-2015), trilharam caminhos semelhantes. Embora as relações tenham passado por um momento de esfriamento durante o governo de Maurício Macri (2015-2019), China e Rússia ocupam o lugar de grandes investidores da economia argentina. Prova disso foi o apoio chinês na construção das controversas represas hidrelétricas Néstor Kirchner-Jorge Cepernic, localizadas na Patagônia Argentina. Em termos de cooperação nuclear, destaque para a base de Neuquén. O passo mais recente foi a assinatura do Plan de Acción para la Cooperación Espacial 2021-2025 entre a Comisión Nacional de Actividades Espaciales (CONAE) da Argentina e a China National Space Administration (CNSA). Para a Rússia, a Argentina é um dos maiores sócios comerciais da América Latina.

Em resposta às declarações de Alberto Fernández, o governo brasileiro pontuou que “no momento, não há discussão para a ampliação do agrupamento”, referindo-se ao BRICS. Com isso, fazemos a seguinte pergunta: uma eventual participação da Argentina no BRICS é possível?

Como a reação do governo brasileiro denota, a entrada da Argentina no agrupamento não é um tema consensual. Na verdade, o Brasil habitualmente se posiciona de forma contrária à aproximação de outros países da América Latina do grupo BRICS.

Se na primeira metade dos anos 2010 o Brasil foi considerado um "motor" do BRICS, visto como uma espécie de hub e representante "natural" do bloco latinoamericano, desde o governo Temer essa não tem sido a leitura de outras lideranças, inclusive no interior do grupo BRICS.

Uma eventual entrada na Argentina poderia servir até como um estímulo para que o Brasil se engajasse novamente no processo BRICS, sob risco de perder seu status de liderança regional. E com todas as discussões em torno de uma reforma nos sistemas econômico e energético globais, - com maior participação de Rússia e China em espaços de tomada de decisão - devido à Guerra na Ucrânia, parece ainda mais estratégico para o Brasil estar atento às repercussões no interior do BRICS.

Fato é que o crescimento do protagonismo de Rússia, China e Índia nos setores militar, econômico e de saúde global, respectivamente, tem despertado o interesse de vários países e conjuntos de países. A "profecia" de Jim O'Neill parece ecoar mais de 20 anos depois, quando se vão mostrando cada vez mais inequívocas as capacidades dos cinco países BRICS.



Notas:


1. Disponível em <https://www.casarosada.gob.ar/slider-principal/48443-el-presidente-alberto-fernandez-se-reunio-con-xi-jinping-en-el-gran-palacio-del-pueblo-y-acordaron-la-incorporacion-de-la-argentina-a-la-franja-y-la-ruta-de-la-seda> Acesso em 11 fev. 2022.


2. Disponível em https://www.cancilleria.gob.ar/es/actualidad/noticias/el-canciller-cafiero-encabezo-la-reunion-del-v-dialogo-estrategico-para-la. Acesso em 11 fev. 2022.


3.Disponível em <http://servicios.infoleg.gob.ar/infolegInternet/anexos/270000-274999/274612/norma.htm> Acesso em 20 de março de 2022.