• O Não Internacionalista

5 REFERÊNCIAS DA DC PARA AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS

Atualizado: Ago 14

Recentemente, Bianca Pereira premiou os leitores do ONão com uma excelente compilação de referências que o Universo Marvel nos permitem fazer com as Relações Internacionais. Na mesma toada, trago 5 referências presentes em filmes baseados em personagens da DC Comics que servem de auxílio tanto na compreensão quanto na problematização dos tópicos tratados pela diversidade de teorias que abrangem o campo de estudo das Relações Internacionais.


O Coringa Hobbesiano


No filme Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008), o vilão Coringa está sempre enfatizando o caos e a anarquia. A visão pessimista e sádica do personagem remete à concepção hobbesiana do estado de natureza, onde os seres humanos estão numa disputa constante de todos contra todos. Em determinado momento do filme, o Coringa diz que “as pessoas são boas apenas enquanto não estão em situações extremas. Tudo que precisam para revelar sua natureza má é de um empurrão”. O Coringa é, portanto, um discípulo de Thomas Hobbes, sempre apontando para o fato dos seres humanos serem naturalmente egoístas, cruéis e perversos.


A Ecopolítica de Aquaman


No filme Aquaman (2018), existe uma tensão entre o protagonista Arthur Curry e o seu meio-irmão Orm: enquanto o primeiro busca uma união com o mundo além dos oceanos, o segundo defende uma divisão entre os habitantes da terra e os dos mares, mesmo que isso ocasione uma guerra. O principal de Orm consiste numa visão ecoada pelo ambientalismo e pela Green Politics nas Relações Internacionais: os seres humanos têm, ao longo dos séculos, poluído os oceanos, interferindo no ecossistema dos mares e progressivamente aumentando o número de catástrofes ecológicas. O filme é, portanto, um alerta para os perigos das mudanças que nós causamos no planeta, em especial nas nossas águas, alegorizando a revolta que a natureza pode suscitar contra o comportamento predatório dos seres humanos.


A discussão feminista em Mulher-Maravilha 1984


No filme mais recente da Princesa Diana, Mulher-Maravilha 1984 (2020), a trajetória da personagem Barbara Minerva é marcada por uma transição radical no momento em que ela realiza o seu desejo de ser "forte e sexy" como Diana. O filme aproveita esse ocorrido para demonstrar como o assédio afeta a vida das mulheres e como estas acabam precisando, muitas vezes, se defender sozinhas de tais situações. O filme também simboliza em algum dos seus personagens masculinos o papel do machismo na sociedade e brinca com os papéis de gênero ao inverter as expectativas desses papéis, tendo Diana e Barbara - mulheres - como forças brutas da trama. Desta forma, Mulher-Maravilha 1984 invoca temas relevantes para a visão feminista das Relações Internacionais.


Bane e a questão da desigualdade estrutural


No último filme da trilogia do Batman dirigida por Christopher Nolan, Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012), o vilão desta vez é Bane e ele traz consigo uma discussão sobre desigualdade que remete à obra de Charles Dickens (Uma história em duas cidades) e aos ímpetos transformadores da Revolução Francesa. Bane ataca a Bolsa de valores de Gotham, instiga as massas a provocarem o caos na cidade e faz discursos que implicitamente criticam a perversão do capitalismo financeiro e da sua tendência de enriquecer os mais ricos e manter os mais pobres à margem da sociedade. O vilão acaba se revelando um mero admirador da destruição, porém suas críticas casam bem com a Teoria da Dependências nas Relações Internacionais, que enfatiza justamente o papel do capitalismo em preservar uma discrepância entre o Norte e o Sul Global.


O Darwinismo Social em O Homem de Aço


Para finalizar, no filme O Homem de Aço (2013), um dos principais aspectos da trama é o objetivo do vilão Zod de reestruturar o governo de Krypton para “recolocar” o poder nas mãos das linhagens puras do planeta. O pai do protagonista do filme, Jor-El, se opõe e acaba sofrendo nas mãos do vilão, que eventualmente enfrenta o Super- Homem na Terra. Essa contextualização do vilão engloba as típicas perspectivas do darwinismo social no fim do século XIX e no início do século XX, servindo de fundamentação pseudo-científica para ideologias como o fascismo e o nazismo. O ressurgimento de tais visões de mundo, ultranacionalistas e infestadas de racismo, se tornou uma preocupação do mundo contemporâneo a partir da ascensão da extrema-direita em diversos países, sendo o filme de Zack Snyder uma obra fictícia capaz de exemplificar e nos fazer refletir sobre essas questões.

Sobre o autor: Graduando em Relações Internacionais no Centro Universitário Jorge Amado (Salvador/BA). Faz análises que misturam cinema, cultura pop e literatura com as Relações Internacionais em @raffzvieira.



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