• Lara Martins

É possível imaginar um mundo sem ideologia?

Atualizado: Fev 18



Quando falamos em pós-política estamos falando de discursos que se posicionam no campo da pós ideologia, um conceito difundido e defendido por muitos autores tais quais Francis Fukuyuma, que entendem que as ideologias não teriam mais espaço em mundo pós Guerra Fria. O spectrum ideológico seria superado. Assim, não caberiam mais disputas políticas a respeito do campo econômico, do político e do social; no lugar disso caberia encontrar gestores e tecnocratas inteligentes, responsáveis e neutros (imparciais, sem ideologias) para gerenciar a sociedade; uma elite formada por déspotas esclarecidos. (BARROS, Rodrigo). Ou seja, as questões relacionadas às políticas públicas deveriam ser gerenciadas, e não disputadas.


Mas como assim “despolitização” se temos mais gente falando de política e demonstrando interesse por ela também?

Sabrina Fernandes (@tezeonze) entende que a despolitização não significa total rejeição do espaço político, nem tudo é antipolítica. Um de seus mecanismos é a criação de “politizações” alternativas que são difusas, incoerentes e individualizadas, que acabam por resultar em respostas equivocadas ou enganosas à conjuntura. A despolitização, portanto, de acordo com Fernandes, é um discurso daqueles que querem manter o status quo (ganhos eleitorais, a tentativa de se manter no poder, etc). Atuando no domínio do senso comum.


Onde que eu posso encontrar fenômenos de pós-política?

Marina Silva na campanha de 2014 é um ótimo exemplo desse fenômeno assim como João Dória em São Paulo. A pós-política também se manifesta em personagens que se consideram bons gestores que administram suas políticas a partir da ética e da imparcialidade e que, de acordo com Fernandes, se auto-afirmam como “impossíveis de serem cooptados por interesses partidários ou políticos”. Um grande exemplo desse último caso é Luciano Hulk, postulante ao cargo do Executivo em 2022.


Como a pós política surge?

A pós-política surge quando uma sociedade enfrenta problemas de representação e isso causa uma desilusão com a política. O Brasil pós-2013 é um grande exemplo desse processo, quando pautas que eram baseadas em classe foram diluídas à pós-politização.


A quem interessa a desideologização?

A ideia é despir a radicalidade de demandas que historicamente fazem parte da esquerda para impedir qualquer tentativa de transformação estrutural profunda. Assim, do que adianta debatermos sobre educação, meio ambiente, administração pública eficiente, saneamento básico, combate à pobreza se não questionamos de fato o tipo de estrutura que favorece esses problemas e, além disso, demonizamos e diluímos as pautas de movimentos que realmente questionam essa estrutura?

De acordo com Jones Manoel, esse feito não assume uma posição dentro do spectrum ideológico, assumindo sua posição apenas como parte da Razão inerente ao homem, falseando o debate político o colocando como não ideológico, negando a própria essência da política que é a conflitividade de interesses antagônicos ou divergentes.

“Você reduz a política a uma dimensão técnica (…), como se política não fosse uma relação de poder e apresenta como solução uma política que não tem fígado, ou seja, não tem interesse por trás, não envolve classe (…)” Manoel, Jones.


Referências:

BARROS, Rodrigo. As renegações da política: arquipolítica, parapolítica, metapolítica, ultrapolítica e pós-política. https://colunastortas.com.br/as-renegacoes-da-politica-arquipolitica-parapolitica-metapolitica-ultrapolitica-e-pos-politica/

FERNANDES, Sabrina. “Nem esquerda nem direita” e a pós-política. https://www.youtube.com/watch?v=rnYpZmCbXUo

FERNANDES, Sabrina. Sintomas Mórbidos: A encruzilhada da esquerda brasileira. Autonomia Literária. 2019

MANOEL, Jones. Social-liberalismo e pós-política: armadilhas da burguesia. https://www.youtube.com/watch?v=C0T-6CbqptI&t=916s

Escrito por Lara Martins (llaramrtins@gmail.com)